BANCO DE TEXTOS DE BRUNO BACELAR
-----
ENTERRASCO
De Bruno Bacelar
Locução – Deu entrada no IML um dos traficantes mais procurados da cidade:
Mário Cláudio da Silva, mais conhecido como: O Sombra! Ele foi alvejado
em uma troca de tiros entre bandidos e policiais. A família pede pressa na
autópsia, pois o meliante em questão se dizia muito religioso, veja você!
E que havia deixado diversas instruções para o seu sepultamento. (Novas
informações a qualquer momento)
(Cozinha pobre. Senhora corre de um lado para o outro em preparativos
culinários. Um homem de aparência rústica a observa apreensivo).
Cara – Calma minha tia! A senhora tá muito agitada...
Mãe – Em primeiro lugar rapaz, eu não sou sua tia! Não sou irmã da tua mãe,
não sou irmã do teu pai... Outra coisa: nem sei se você era amigo do meu filho,
mesmo. Nunca te vi mais gordo, nunca vi meu filho andando contigo... Aí você
me aparece de repente dando essa notícia... (lembra morte) Ai meu filho! Meu
filho não merecia isso! Ai meu Deus! (chora desesperada)
Cara – Olha só, tremenda falta de consideração hein? Vim aqui na boa porque
era parceiro do Sombra...
Mãe – Mário Cláudio! Meu filho se chamava Mário Cláudio...
Cara – Então, era parceiro do... desse aí, e não quis que a senhora soubesse
das coisas pela boca dos outros, ou pela TV... Vim aqui de coração... E a
senhora nunca me viu com Sombra...
Mãe – Mário Cláudio...
Cara – a senhora nunca me viu com ele porque já tinha uma porrada de tempo
que ele num vinha pra essas bandas nem visitava a senhora...
Mãe – Meu filho viajava a trabalho, num tinha tempo... Mas me mandava carta,
e nos últimos anos me mandava torpedo pelo celular... Ai meu filho! Meu filho
não merecia isso! Ai meu Deus! (chora)
Cara – E esse negócio que a senhora falou aí de me ver mais gordo, a senhora
não me leve a mal, mas é sacanagem da senhora, até porque já tem mais de
ano que emagreci: tô malhando e tô sarado. Aqui ó! (pega a mão dela e passa
na barriga “tanquinho” dele)
Mãe – Mas o que é isso? Eu hein! Você tá é me atrapalhando, sabe? Meu filho
Mário Cláudio sempre me disse que quando morresse queria festa no enterro
dele, e com churrasco completo! Eu já preparei tudo! Mesmo sem dinheiro,
já fiz o arroz, a maionese, o molho à campanha, as vizinhas vão me ajudar
com uma bacia de salpicão e uns salgadinhos, e o seu Raul aí da quitanda me
deixou penduras as bebidas. Agora o principal num consegui: a carne!
Cara – Aí fodeu!
Mãe – Aqui não se fala palavrão rapaz! Entendeu? Num gosto de palavrão,
nem de pornografia! Entendeu? Pouca vergonha... Ai meu filho! Meu filho não
merecia isso! Ai meu Deus! (chora)
Cara – Ô tia... quer dizer... dona Sombra, desculpa... Ô mãe do... falecido, vou
ver o que posso resolver! Vazei! (sai)
Vizinha – (entrando) Ô abençoada, como tá esse coraçãozinho?
Mãe - Ai meu filho! Meu filho não merecia isso! Ai meu Deus!
Vizinha – Olha abençoada! Já acendi a churrasqueira. Cadê a carne?
Mãe – Tô providenciando...
Viz – Melhor num demorar viu abençoada! O povo já tá de prato na mão...
Senão vai parecer aquele pagode: “Fui no pagode na casa do Gago, e o rango
demorou a sair...” (gargalha estridente. Sem graça.) Vou lá ver o movimento...
(saindo, volta) Ah, tem pra base de umas cinco donas aí na porta se dizendo
esposa do finado... Como é que faz, abençoada?
Mãe – Meu filho era viúvo, vizinha! Você sabe disso! Ai meu filho! Meu filho
não merecia isso! Ai meu Deus!
Viz – Mas tem uma aqui que se diz a “de fé”, e elas já estão criando tumulto.
Mãe – Fala para elas sossegarem, senão ponho todo mundo pra correr!
(vizinha vai até porta da cozinha e grita o recado da mãe para elas. Vizinha faz
sinal positivo c dedo p mãe e sai.).
Cara – Dona Sombra (mãe olha com ódio) a boa notícia é que o corpo já tá
chegando pro velório começar...
Mãe - Ai meu filho! Meu filho não merecia isso! Ai meu Deus!
Cara – E a má notícia é que nada de carne! Fui aqui no açougueiro, desenrolei
a situação, dei até tiro no pé dele, mas ele ficou dizendo que não tinha carne...
Vê se pode!
Mãe – Ai, coitado do seu Guilherme...
Vizinha – Abençoada! Confusão armada! Chegou aí uma dona Carmem mãe
de santo do finado e começou botar um monte de comida aí na sala! Tem mais
comida que aqui na sua cozinha: pipoca, farofa, cachaça... Mas aí aparece
uma tal de pastora Cecília que diz que finado tinha se entregue pra Jesus e
sentou e bíblia na macumbeira... Por sua vez a macumbeira sentou a vasilha
de farofa na pastora... Enfim: porrada estancando...
Mãe – Olha o palavrão!
Cara – Porrada não é palavrão...
Mãe – É sim senhor! É sim senhor! Palavrão e pornografia ao mesmo tempo...
Viz – Olha abençoada, e o povo tá com fome, hein! Comeram as macumbas da
dona Carmem, mas eles querem mais! Vão invadir aqui já-já! Cadê a carne?
Mãe – O que eu vou fazer?
Voz de fora – O corpo chegou!!!!!
Mãe - Ai meu filho! Meu filho não merecia isso! Ai meu Deus!
Cara – Espera aí dona Sombra! Eu vou dar um jeito nisso... (sai e vizinha atrás)
(Mãe apreensiva ouve som de grito do Cara, tiros, gritos. Silêncio. Ela
estranha. Ele volta com avental de açougueiro todo sujo de sangue).
Mãe – Mas o que é isso, rapaz?
Cara – Resolvido o problema! Carne na brasa, pagode comendo, cerveja
rolando! Tudo sob controle!
Mãe – Mas onde você arrumou carne? (pensa) Você matou o açougueiro,
menino?
Cara – Que é isso dona... Num matei ninguém não... No caso já estava morto!
Mãe – Já estava morto? (pensa. Entende.) Ai meu filho! Meu filho não merecia
isso! Ai meu Deus! (chora desesperada)
Cara – Calma dona! Ele já tá morto mesmo. Não tinha outro jeito! Senão era
esse povo que ia matar a senhora... Questão de sobrevivência... Além do mais,
só retirei as carnes nobres! Pelo vidro do caixão nem se nota...
Mãe – Criei esse menino com tanta luta! Sozinha... Fiquei viúva muito nova!
Cara – Muito nova, é?
Mãe – Só me dediquei para ele e para a casa...
Cara – Que dureza...
Mãe – Nunca mais casei...
Cara – Nunca é?
Mãe – Nunca mais...
Cara – Bom dona, lá fora tá todo mundo matando a fome. E a senhora? Quer
comer (se insinua)
Mãe – (brava) Olha aqui rapaz... (pensa bem) Quer saber, também sou filha de
Deus, mereço comer um filet mignon de vez em quando! (sai se agarrando com
rapaz)
FIM
De Bruno Bacelar
Locução – Deu entrada no IML um dos traficantes mais procurados da cidade:
Mário Cláudio da Silva, mais conhecido como: O Sombra! Ele foi alvejado
em uma troca de tiros entre bandidos e policiais. A família pede pressa na
autópsia, pois o meliante em questão se dizia muito religioso, veja você!
E que havia deixado diversas instruções para o seu sepultamento. (Novas
informações a qualquer momento)
(Cozinha pobre. Senhora corre de um lado para o outro em preparativos
culinários. Um homem de aparência rústica a observa apreensivo).
Cara – Calma minha tia! A senhora tá muito agitada...
Mãe – Em primeiro lugar rapaz, eu não sou sua tia! Não sou irmã da tua mãe,
não sou irmã do teu pai... Outra coisa: nem sei se você era amigo do meu filho,
mesmo. Nunca te vi mais gordo, nunca vi meu filho andando contigo... Aí você
me aparece de repente dando essa notícia... (lembra morte) Ai meu filho! Meu
filho não merecia isso! Ai meu Deus! (chora desesperada)
Cara – Olha só, tremenda falta de consideração hein? Vim aqui na boa porque
era parceiro do Sombra...
Mãe – Mário Cláudio! Meu filho se chamava Mário Cláudio...
Cara – Então, era parceiro do... desse aí, e não quis que a senhora soubesse
das coisas pela boca dos outros, ou pela TV... Vim aqui de coração... E a
senhora nunca me viu com Sombra...
Mãe – Mário Cláudio...
Cara – a senhora nunca me viu com ele porque já tinha uma porrada de tempo
que ele num vinha pra essas bandas nem visitava a senhora...
Mãe – Meu filho viajava a trabalho, num tinha tempo... Mas me mandava carta,
e nos últimos anos me mandava torpedo pelo celular... Ai meu filho! Meu filho
não merecia isso! Ai meu Deus! (chora)
Cara – E esse negócio que a senhora falou aí de me ver mais gordo, a senhora
não me leve a mal, mas é sacanagem da senhora, até porque já tem mais de
ano que emagreci: tô malhando e tô sarado. Aqui ó! (pega a mão dela e passa
na barriga “tanquinho” dele)
Mãe – Mas o que é isso? Eu hein! Você tá é me atrapalhando, sabe? Meu filho
Mário Cláudio sempre me disse que quando morresse queria festa no enterro
dele, e com churrasco completo! Eu já preparei tudo! Mesmo sem dinheiro,
já fiz o arroz, a maionese, o molho à campanha, as vizinhas vão me ajudar
com uma bacia de salpicão e uns salgadinhos, e o seu Raul aí da quitanda me
deixou penduras as bebidas. Agora o principal num consegui: a carne!
Cara – Aí fodeu!
Mãe – Aqui não se fala palavrão rapaz! Entendeu? Num gosto de palavrão,
nem de pornografia! Entendeu? Pouca vergonha... Ai meu filho! Meu filho não
merecia isso! Ai meu Deus! (chora)
Cara – Ô tia... quer dizer... dona Sombra, desculpa... Ô mãe do... falecido, vou
ver o que posso resolver! Vazei! (sai)
Vizinha – (entrando) Ô abençoada, como tá esse coraçãozinho?
Mãe - Ai meu filho! Meu filho não merecia isso! Ai meu Deus!
Vizinha – Olha abençoada! Já acendi a churrasqueira. Cadê a carne?
Mãe – Tô providenciando...
Viz – Melhor num demorar viu abençoada! O povo já tá de prato na mão...
Senão vai parecer aquele pagode: “Fui no pagode na casa do Gago, e o rango
demorou a sair...” (gargalha estridente. Sem graça.) Vou lá ver o movimento...
(saindo, volta) Ah, tem pra base de umas cinco donas aí na porta se dizendo
esposa do finado... Como é que faz, abençoada?
Mãe – Meu filho era viúvo, vizinha! Você sabe disso! Ai meu filho! Meu filho
não merecia isso! Ai meu Deus!
Viz – Mas tem uma aqui que se diz a “de fé”, e elas já estão criando tumulto.
Mãe – Fala para elas sossegarem, senão ponho todo mundo pra correr!
(vizinha vai até porta da cozinha e grita o recado da mãe para elas. Vizinha faz
sinal positivo c dedo p mãe e sai.).
Cara – Dona Sombra (mãe olha com ódio) a boa notícia é que o corpo já tá
chegando pro velório começar...
Mãe - Ai meu filho! Meu filho não merecia isso! Ai meu Deus!
Cara – E a má notícia é que nada de carne! Fui aqui no açougueiro, desenrolei
a situação, dei até tiro no pé dele, mas ele ficou dizendo que não tinha carne...
Vê se pode!
Mãe – Ai, coitado do seu Guilherme...
Vizinha – Abençoada! Confusão armada! Chegou aí uma dona Carmem mãe
de santo do finado e começou botar um monte de comida aí na sala! Tem mais
comida que aqui na sua cozinha: pipoca, farofa, cachaça... Mas aí aparece
uma tal de pastora Cecília que diz que finado tinha se entregue pra Jesus e
sentou e bíblia na macumbeira... Por sua vez a macumbeira sentou a vasilha
de farofa na pastora... Enfim: porrada estancando...
Mãe – Olha o palavrão!
Cara – Porrada não é palavrão...
Mãe – É sim senhor! É sim senhor! Palavrão e pornografia ao mesmo tempo...
Viz – Olha abençoada, e o povo tá com fome, hein! Comeram as macumbas da
dona Carmem, mas eles querem mais! Vão invadir aqui já-já! Cadê a carne?
Mãe – O que eu vou fazer?
Voz de fora – O corpo chegou!!!!!
Mãe - Ai meu filho! Meu filho não merecia isso! Ai meu Deus!
Cara – Espera aí dona Sombra! Eu vou dar um jeito nisso... (sai e vizinha atrás)
(Mãe apreensiva ouve som de grito do Cara, tiros, gritos. Silêncio. Ela
estranha. Ele volta com avental de açougueiro todo sujo de sangue).
Mãe – Mas o que é isso, rapaz?
Cara – Resolvido o problema! Carne na brasa, pagode comendo, cerveja
rolando! Tudo sob controle!
Mãe – Mas onde você arrumou carne? (pensa) Você matou o açougueiro,
menino?
Cara – Que é isso dona... Num matei ninguém não... No caso já estava morto!
Mãe – Já estava morto? (pensa. Entende.) Ai meu filho! Meu filho não merecia
isso! Ai meu Deus! (chora desesperada)
Cara – Calma dona! Ele já tá morto mesmo. Não tinha outro jeito! Senão era
esse povo que ia matar a senhora... Questão de sobrevivência... Além do mais,
só retirei as carnes nobres! Pelo vidro do caixão nem se nota...
Mãe – Criei esse menino com tanta luta! Sozinha... Fiquei viúva muito nova!
Cara – Muito nova, é?
Mãe – Só me dediquei para ele e para a casa...
Cara – Que dureza...
Mãe – Nunca mais casei...
Cara – Nunca é?
Mãe – Nunca mais...
Cara – Bom dona, lá fora tá todo mundo matando a fome. E a senhora? Quer
comer (se insinua)
Mãe – (brava) Olha aqui rapaz... (pensa bem) Quer saber, também sou filha de
Deus, mereço comer um filet mignon de vez em quando! (sai se agarrando com
rapaz)
FIM
---
Via de Mão Dupla, de Bruno Bacelar
(Quarto. Casal entra excitado se agarrando).
Ela – Ai amor, eu estou cada dia gostando mais de você...
Ele – Eu também, amor! Tô morrendo de tesão...
Ela – Um mês de namoro! Está tudo tão maravilhoso...
Ele – Um mês já, né? Seu zíper tá emperrado, é?
Ela – Eu queria te fazer um pedido...
Ele – Pede o que quiser amor: peça a lua que eu te dou!
Ela – Jura?
Ele – Claro amor! Onde tá a camisinha...
Ela – Ai, estou tão excitada!
Ele – Também... Já tô com o saco doendo...
Ela – Eu quero te comer.
Ele – Oi?
Ela – Eu quero te comer.
Ele (pausa. Ri aliviado) – Ah, tá! Você quer me comer no sentido figurado: Me devorar! Me possuir... Safadinha! É claro que você pode! Me devora! (se joga na cama)
Ela – Não amor. Eu quero te comer no sentido literal, mesmo.
Ele – Sentido literal?
Ela – É. Te penetrar.
Ele – Me penetrar?
Ela – Tá com problema de audição?
Ele – Não. E você está louca?
Ela – Não. Por que estaria?
Ele – (irritado) Por quê?!? Porque você disse com a maior tranquilidade do mundo que, que quer, me, me...
Ela - Comer! Eu quero te comer! Ih... (aborrecida)
Ele – Ih digo eu! Quer me comer... Não seja ridícula! Me comer como? Pode me dizer? Eu tenho o brinquedo de armar! Você tem o brinquedo de abrir... Lembra?
(Enquanto ele fala o texto acima ela tira da bolsa um cinturão com pênis, ou outro tipo de consolo. Quando ele dá de cara com o membro, se assusta).
Ele – Aiiii! Você trouxe um pênis...
Ela – Uma caceta e tanto, não acha?
Ele – Pelo amor de Deus...
Ela – Olha a bitola da chapeleta (admira)
Ele – Para com isso...
Ela – Tala larga...
Ele – Mulher!!!!
Ela – Eu chamo carinhosamente de “Chapoca”.
Ele – Você tá com o diabo no corpo. Só pode ser...
Ela – Deixa de ser retrógrado, homem? Vamos lá... Vai ser bom...
Ele – Vai ser bom... O caralho, que vai...
Ela – Caralho? Opa! Tá aqui...
Ele – Eu sou homem, mulher...
Ela – Sim. E???
Ele – E daí que, que a minha via só sai, entendeu? Via de mão única! Só sai...
Ela – Mas que bobagem, amor! Pensamento de classe média! (carinhosa) Você sabia que essa era uma prática normal na Grécia antiga? Beijo grego! Anilingus...
Ele – Anilingus!?
Ela – Cunete, língua lá... (faz linguinha ilustrativa)
Ele – Cruzes...
Ela – Na Grécia Antiga eles faziam de tudo...
Ele – Ah, tá? E na Grécia Antiga já existia o, Chapoca? Fala sério...
Ela – Chapoca não... Mas o Dildo!
Ele – Dildo?
Ela – (persuasiva) Sim. Dildo: falos de madeira com vinte centímetros!
Ele – Vinte centímetros?!
Ela – Como o Chapoca...
Ele – Quer dizer que os gregos, os pais da civilização ocidental, mandavam uma tora de vinte centímetros pra dentro?
Ela – Com azeite para facilitar o processo...
Ele – Por isso se chamava Dildo... De “fulDildo” (riso frouxo c a própria piada. Percebe quão tosca foi a piada e se recompõe)
Ela – Na Pré História eram de pedra...
Ele – Puta que pariu...
Ela – Poxa amor, deixa vai! Olha como eu tô excitada... ( vem c/Chapoca p/ ele)
Ele – Sai para lá.
Ela – O meu último namorado, antes de você, adorava, sabia?
Ele – Ah sei... Gostava tanto que deu no pé...
Ela – Eu larguei ele...
Ele – Ah é? Por quê?
Ela – Ah, sabe como é! Se apegou demais... Grudou, sabe? Detesto grude...
Ele – Hum...
Ela – Depois que eu apresentei o Chapoca para ele, não queria outra vida...
Ele – Ah, então você já usou “ele” em outro... ? Ai, que merda...
Ela – Não tinha não...
Ele – O quê?
Ela – Merda. Eu usava preservativo!
Ele – Preservativo?! Onde?!
Ela – No Chapoca!
Ele – No Chapoca?! (risinho) Mas é o quê? Medo de engravidar o ex?
Ela – Não. Uma questão de higiene. (ele não entende) É que o Chapoca é feito de material poroso... (Olhar expressivo dela. Ele entende. Ele faz cara de nojinho).
Ela – Eu até achei que aquele grude todo era mero fascínio pelo falo. Tentei resolver deixando ele alguns momentos a sós com o Chapoca.
Ele – Sozinho com a geba? Mas como é que ele... fazia?
Ela – Adaptei uma ventosa na base dele.
Ele – Oi?
Ela – Ventosa, amor: molha com um pouquinho de água, gruda na parede, e depois e só fazer a carreira solo! (movimentos ilustrativos. Ele passado). Enfim, meu amor! Aquele sim era um cara sem preconceitos...
Ele – Eu não tenho preconceitos... Só não quero dar...
Ela – Mas de comer você gosta!
Ele – Bem...
Ela – Pensa comigo: se é bom para você, vai ser bom para mim também, concorda?
Ele – Para você... sei lá... Para mim vai ser péssimo!
Ela – (irritando-se gradativamente) Ah, então se é péssimo para você, concluo que você imaginava que era péssimo para mim também...
Ele - Não é isso, meu amor...
Ela - (irritando-se gradativamente) Uma vez que cu e boca não tem sexo.
Ele – É... de fato não tem...
Ela - (irritando-se gradativamente) A partir desta constatação entendo que você pouco se fodia comigo, e que só queria me foder, em todos os sentidos...
Ele – Calma, benzinho...
Ela - (muito irritada) Porque afinal de contas, piroca no cu dos outros é refresco, não é, seu filho da puta???
Ele – Porra mulher, caralho! (ela chora)
Ele - (pensa) Quer dizer, vai tomar no cu, que merda! (ela chora mais)
Ele - (pensa) Cu... merda... Não, não... Enfim! Você tá me deixando louco com essa conversa! (pensa) Quer saber... faz aí o que você quiser! (abaixa a calça e fica na “posição”) Feliz um mês de namoro! Divirta-se.
Ela – (olha e pensa) Ah, cara... Agora ficou difícil!
Ele – Oi?
Ele – Rolou muita incompreensão, muito preconceito, muita ignorância da sua parte... Estou abaladíssima!
Ele – Não tô entendendo...
Ela – Olha cara, vou precisar de um tempo para digerir tudo isso! Rolou muita energia bizarra! Acabou com o clima! Olha só, (aponta Chapoca) brochei!
Ele – Você tá de sacanagem...
Ela – (dando um beijo no rosto dele) Qualquer coisa te cutuco no face! Bjos. (sai)
(Ele a acompanha com o olhar. Fica inicialmente sem ação. Pensa. Pega o celular. Liga. Aguarda.).
Ele – Alô? Grandão! Fala primão! Preciso que você venha aqui em casa agora... (ouve) O quê? Não! Sabe o que é... Você quer conhecer mais sobre a Grécia?
FIM
------
Milagres Não Existem
De Bruno Bacelar
(Sala de mestre Shantala. Um altar. Entra Shantala com incensos.).
M – Minha santa Sarah cigana! Onde estão meus clientes, minha santa Sarah cigana? Meu aluguel está vencendo e nada... Isso deve ser castigo. Só pode ser... Eu fiz muita merda: elegi político corrupto, inocentei bicheiro... Mas era por uma boa causa minha santa Sarah cigana! Minha santa Sarah cigana, me ajude! Eu preciso de um milagre...
(campainha)
M – Minha santa Sarah cigana! Que rapidez! Muito obrigado!! Puta que pariu! Cléia Monterrey! (respira tenso. Arma sorriso e abre porta) Querida!
(entra)
M – Cleia querida! Sumida! Quando cliente some é porque está tudo dando certo...
M– Cléia Monterrey! Está de sacanagem, santa Sarah cigana? Eu pedi um milagre e vem ela...
C – (tira um papel da bolsa. Lê) Mestre Shantala! O senhor sabe o quanto eu o respeito e admiro!
M - Hum...
C – Tenho feito os seus rituais durante bastante tempo...
M – Hum...
C – Mas como não tenho atingido os meus objetivos, acho justo e digno...
M – Hum...
C – Que o senhor proceda à devolução do dinheiro que investi no senhor.
M – Devolver dinheiro?! (para altar) Eu pedi dinheiro entrando, não saindo...
C –Mestre Shantala, estou instruída por advogados a respeito dos meus direitos, mas estou certa de que o senhor, como um Mestre, é totalmente desapegado destas questões monetárias.
M – Cleinha! O dinheiro que você investiu foi em você mesma! Na busca do sucesso na sua carreira...
C – No sucesso da minha carreira... que não aconteceu até agora! Já fiz de tudo! Nem a minha carreira decola, não passo em nenhum teste, nem os meus vídeos do youtube viram virais...
M – Injustiça! Você certa vez conseguiu um patrocínio para um filme seu, por exemplo!
C – Grande coisa! Acabei tendo que tirar dinheiro do bolso no fim do filme!
M – Mas prestação de contas é assim mesmo, né? Ganhou 100, prestou conta só de 60, tem que botar 40 do bolso... É matemática.
C – Lembrei-me também daquela vez que gastamos um dinheirão fazendo um ritual para um teste da novela, e no fim deu no que: em nada! Não passei no teste!
M – É, é verdade... Mas me lembro também, se não me engano, que você no dia do teste não tinha decorado o texto, correto! Bem, eu não sou do ramo, mas decorar o texto... é o básico, não é?
C – Ahhh, e aquela vez que o senhor queria fazer um ritual... Não gosto nem de lembrar... O senhor queria fazer um ritual com um pobre veadinho!
M – Era uma questão bem complicada...
C - Eu não tive coragem... É uma questão de defesa dos animais... Além do mais mestre Shantala! Aonde que eu ia encontrar um veadinho dando sopa?
M – Um veadinho? (acende luz plateia. Ele olha) Coisa mais fácil de encontrar... (ela acompanha o seu olhar) (apaga luz plateia). Mas Cleia querida, esse ritual era para que você não perdesse aquele papel de protagonista naquele musical badaladíssimo, lembra?
C – (já alterada) Mas para isso eu já tinha feito outro ritual. Já tinha feito e já tinha pago! E ainda assim eu fui mandada embora do musical!
M – Mas Cleia amada! Saiu no blog do diretor da peça que você era indirigível...
C – Ele é um escroto recalcado! Um iniciante que queria mandar em mim...
M – Mandar não Cleinha... Dirigir. Não sou do ramo, mas os diretores costumam dirigir, não é?
C – Besteira! Essa história de supremacia do diretor não funciona comigo não! Eu preciso que o senhor me devolva este dinheiro, porque com ele eu pretendo investir em um projeto meu.
M – Mas um projeto que não vai dar em porra nenhuma... (segura a boca)
C –O senhor falou... “porra”, Mestre?
M – Eu? Não? Mestre Shantala nunca diz palavrão! Quis dizer que talvez não seja este o melhor caminho...
C – Mas este é o caminho que pretendo seguir sim: O meu próprio programa de tv para um canal fechado! Eu me sinto bem segura agora e creio que não preciso mais das suas orientações! Um programa só meu!
M – Até porque ninguém te suporta! (de novo segura a boca)
C – Ninguém me suporta!? O senhor está muito estranho...
M – Estou mesmo... Eh, então... Talvez as coisas não tenham dado tão certo para você até agora porque você talvez esteja um pouco resistente... Entende?
C –Não.
M –Puta que pariu... É que você é...
C – Eu sou?
M – Você é muito...
C – Eu sou muito?
M – Você é muito chata!
C – Chata, mestre Shantala!?!?
M – Chata! Chata sim! Insuportável! Intragável! Intratável! Indirigível! Inaceitável... Quem você pensa que é, mulher? Um mundo de gente aí fora matando e morrendo pra ganhar salário mínimo! Milhões que acordam três da manhã, pegam trem lotado, quebrado, ouvindo merda de patrão pra ganhar mixaria que não paga nem a carne do mês; e você aí preocupadinha com a sua carreirinha de merda!
C – Carreira de merda?!
M – De merda, não! De merrrrrrrrrrrrrrrrrrrrda! Você nessa sua “grande” carreira nunca teve a coragem de fazer um curso decente. Tem dinheiro e nunca quis se especializar. Fez meia dúzia de oficinas e se acha a Fernanda Montenegro contemporânea!
C – Nunca precisei de faculdade, e...
M – (pega ela pelos braços) Nunca teve foi a humildade de começar pelo começo! Você é uma pseudoatriz, quarentona, presunçosa, arrogante, vaidosa, metida... e o pior: é fraca! Você é fraca Cleia Monterrey! Fraca!
C – Eu não sou nada disso, tá?! Eu sou legal, tá? Eu faço até teatro de grupo, tá? (chorando)
“M – “Teatro de grupo”,” Teatro de grupo”! Palhaçada... Um bando de patricinha, de viadinho, e de viadinho heterossexual que ensaia por umas duas horas e depois, fica cinco horas tirando onda de intelectual com copo de chopp na mão, depois pagam a conta, com o cartão dos pais, e invariavelmente, vão foder uns com os outros... e invariavelmente: sem emoção! Nem nesse momento...
(silêncio)
C – Você é um guru de merda, sabia?
M – Sabia...
C – Não tem seguidores, não tem templo, não tem nem casa própria...
M – Você está certa... Fui um fracasso até aqui... E você é a prova disso...
C – Eu sou uma pseudo atriz...
M – Eu sou um guru de merda...
C – Tanta gente consegue e eu não... Eu queria um milagre...
M – Eu vendia milagres...
Os DOIS - (juntos por coincidência) Milagres não existem! (se olham assustados. Riem. Silêncio. Se olham. Se beijam longamente. Silêncio. Se abraçam. Luz cai em resistência. Acende luz ao fundo. Aparece Santa Sarah Cigana. Ela ri. Luz dela cai em resistência enquanto ela ri e entra música “ Please Let Me Be Misunderstood”)
FIM
Encontro Definido, de Bruno Bacelar
(Quarto. Rapaz com copo na mão passa em frente laptop. Põe copo ao lado lap, lê algo nele.
Chama)
Irmão – Irmã. Mensagem para você. (Sai esquecendo copo. Mulher saindo banho corre para laptop.
Ah sim... ela é gorda.)
Gorda – (teclando) Combinado então Urso sarado RJ! Daqui a uma hora estarei lá! (Lê resposta.
Tecla) Estarei num tubinho vermelho bem sensual... Você vai saber na hora quem sou eu.
(Lê resposta. Ri excitada. Vê copo e bebe ansiosa. Tecla e fecha laptop.Sai cena e volta com
tubinho vermelho visivelmente menor que ela. Ela vai centro da cena em foco fechado, olha para
tubinho em tom de desafio, respira fundo e com coragem começa a luta para entrar no mesmo.
Tenta por um tempo sem sucesso. Ela cansa e senta cadeira próxima. Exausta. Por trás dela
aparecem duas mãos a massageá-la. Ela gosta mas depois estranha. Vira-se lentamente enquanto
foco abre. Vislumbra homem sarado de sunga, chifre e rabo: é o diabo!)
Gorda – Aiiiiii! O que é isso?
Diabo – “O que é isso” não! Olha o bullying hein...
G – Quem é você?
Di – Quem sou eu? Não sabe ler os códigos? (mostrando) Chifre, rabo, (lembra e pega) ah sim:
tridente! (mostra feliz)
(meio catatônica)
Diabo – Nada ainda? Caraca! Ok, vamos lá! (gestos ilustrativos adivinhação) Uma palavra: Duas
partes! (gestos relativos a palavra dia: sol, acordar...)
G – (choque) Dia?
D – Boa! Segunda parte! (gestos relativos a dar sustos em alguém)
G – Susto? (ele continua) Assustar? (ele continua) “-Boo”?
(acena positivamente)
G – (juntando) Dia-boo... (passada) Você é o diabo...
D – Isso aí.
G – Mas o que você...
D – O que estou fazendo aqui? Bem, digamos que estava passando, meio de bobeira, carente, e
resolvi bater um papo contigo...
G – Ah...
D – Então você está numa de entrar nesse vestidinho?
G – Tubinho...
D – Complicado, não acha?
G – Um pouco...
D – Um pouco?!?! Querida! (rindo discretamente) Desculpe a minha franqueza politicamente
incorreta, mas... você está muuuuito gorda!
G – Isso não pode estar acontecendo...
D – Mas está acontecendo sim, fofinha! O que você quer? Come igual uma draga o dia todo, não
quer subir nem um lance de escada; e vive de chopinho... Aí minha filha, fica difícil, né?
G – Mas também não é assim! Todas as manhãs eu tomo chá verde, suco de clorofila...
D – e um cheseeburguer, um refri “zero”, farofa, maionese, empanado, batata frita, um café “ com
adoçante”, frango a passarinho, provolone a milanesa, litros de chopp... e chá de carqueja para
desgastar... Ridícula!
G – Olha, você me respeita, tá?
D – Gorducha cara de pau...
G – Isso é bullying! Não faça com os outros...
D – Besteira...
G – Isso não é justo...
D – Já viu diabo justo? (diverte-se)
G– Mas afinal de contas, você não tem nada melhor prá fazer não? Vai trabalhar! Levar alguém pro
inferno...
D – Você.
G – Oi?
D – Eu ia te preparar melhor, mas já que você tocou no assunto...
G – Eu vou morrer?
D – (peninha cínica) – É isso, gata.
G – Por que eu?
D – “Por que eu”?!? Fofucha! Você passou seus últimos vinte anos enchendo a cara de gordura,
açúcar, álcool, sem um exerciciozinho, uma dietinha, um médico... Esse desfecho é inevitável!
G – Mas por que o inferno?
D – Digamos que é por... questões de gravidade.
G – Questões de gravidade?
D – Você é lenta, né? (explica) Acompanha: você, desse tamanho, lá pro alto, como? Nem de
foguete...
G – Absurdo! (desesperada) Na bíblia, Nossa Senhora subiu em corpo e alma levada pelos anjos...
D – (gargalha) Agora você apelou... Nossa Senhora é Nossa Senhora... E é magra! (Ri) Você
levada por anjos... Ía precisar de todos os anjos da guarda do planeta... E assim mesmo...
(G vai prá cima dele e ele a repele magicamente)
D – Sem violência! Você desse tamanho me amassa todo...
G – Já sei o que vou fazer! Eu vi isso num filme! (de joelhos reza) Valei-me Nossa Senhora!
(Efeitos. Surge uma senhorinha)
G – (reconhecendo) Vovó?! Desculpa vó, mas eu estava esperando um santo, um anjo...
V – Seu anjo está de folga. Você dá muito trabalho com essa comilança toda...
G – Vovó!!!
V – Minha netinha, o negócio é o seguinte: (olha uma carta) o que consegui prá você é uma
segunda chance, um retorno de experiência. Mas vai ter que entrar numa dieta! Acabou a farra
calórica! Você vai fazer uma reeducação alimentar: a partir de agora é só arrozinho integral,
suquinho de melão, muita água, sopinha, acelga, aipo, alface, brócolis, peixinho grelhado... e muito
exercício. Para sempre... É o que tem para hoje!
G – Mas que inferno...
D – Opa! Chamou?
V – É isso mesmo minha doce netinha, ou dieta ou... ele!
G – Vocês parecem que estão do mesmo lado...
V – Jamais.
D –Imagina...
G – Mas isso não é justo...E o livre arbítrio, gente?
D – Dando uma de kardecista, agora...
G – Eu sou gorda, sim! Posso até cuidar mais da saúde...
V – Uma ginástica...
G – Cala boca vó, que a senhora fumava horrores...
D – Ah, é mesmo...
G – Eu posso entrar numa dança, posso até pegar leve nos chopinhos...
V – Não é bonito moça que bebe... (Neta olha em tom ameaçador)
G – Mas eu estou bem assim! Gosto de ser como eu sou!
D – Uma gorda por ideologia? Que novidade.
G - Que mundo injusto, meu Deus!(Efeitos, surge um anjo de sunga, asas e aureola. Ela para a
avó) Meu anjo num estava de folga?
V = Estagiário.(Anjo entrega carta prá gorda. Sai. Ela lê em silêncio. Olha os dois maliciosamente)
G – Então meu diabinho é tão sarado, magrinho, gostoso... porque fez uma redução de estômago e
duas plásticas, né?
D – Mas faz tempo...
G – Mentira, diabo obeso. Está tudo neste dossiê. Você pesava mais de 140 kg...
D - Problema de glândula...
G – Você não tem moral para apitar nada na minha vida ou na minha morte! Muito menos para
criticar minha... fofura.
D – Mas eu sou o Diabo! E além do mais eu malhei muito! Fiz spinning! Trabalhei glúteo...
G – (tom sacro) – Volte pro inferno Satanás! (efeitos. Diabo grita e desaparece. Prá avó) Own,
vovozinha querida! (vovó aproxima feliz. Gorda estala dedo e aponta, foco acende, tema“Ghost”)
Vá para luz vovó! Eles estão esperando!
V – Mas minha netinha...
G – (irritadamente enfática) Vá para luz vovó! Eles estão esperando! (efeitos. Vovó desaparece.
Luz volta. Ela está com vestido vermelho nas mãos agora do tamanho dela)
G – É isso aí! Se o tubinho não entra, eu visto uma manilha! (veste-se rapidamente, se ajeita, pega
bolsa e sai. Entra irmão atrás do copo. O encontra vazio)
Irmão – Poxa, sacanagem! Ela bebeu o meu santo dyme todo! Acabou com o meu barato!
FIM.
(Quarto. Rapaz com copo na mão passa em frente laptop. Põe copo ao lado lap, lê algo nele.
Chama)
Irmão – Irmã. Mensagem para você. (Sai esquecendo copo. Mulher saindo banho corre para laptop.
Ah sim... ela é gorda.)
Gorda – (teclando) Combinado então Urso sarado RJ! Daqui a uma hora estarei lá! (Lê resposta.
Tecla) Estarei num tubinho vermelho bem sensual... Você vai saber na hora quem sou eu.
(Lê resposta. Ri excitada. Vê copo e bebe ansiosa. Tecla e fecha laptop.Sai cena e volta com
tubinho vermelho visivelmente menor que ela. Ela vai centro da cena em foco fechado, olha para
tubinho em tom de desafio, respira fundo e com coragem começa a luta para entrar no mesmo.
Tenta por um tempo sem sucesso. Ela cansa e senta cadeira próxima. Exausta. Por trás dela
aparecem duas mãos a massageá-la. Ela gosta mas depois estranha. Vira-se lentamente enquanto
foco abre. Vislumbra homem sarado de sunga, chifre e rabo: é o diabo!)
Gorda – Aiiiiii! O que é isso?
Diabo – “O que é isso” não! Olha o bullying hein...
G – Quem é você?
Di – Quem sou eu? Não sabe ler os códigos? (mostrando) Chifre, rabo, (lembra e pega) ah sim:
tridente! (mostra feliz)
(meio catatônica)
Diabo – Nada ainda? Caraca! Ok, vamos lá! (gestos ilustrativos adivinhação) Uma palavra: Duas
partes! (gestos relativos a palavra dia: sol, acordar...)
G – (choque) Dia?
D – Boa! Segunda parte! (gestos relativos a dar sustos em alguém)
G – Susto? (ele continua) Assustar? (ele continua) “-Boo”?
(acena positivamente)
G – (juntando) Dia-boo... (passada) Você é o diabo...
D – Isso aí.
G – Mas o que você...
D – O que estou fazendo aqui? Bem, digamos que estava passando, meio de bobeira, carente, e
resolvi bater um papo contigo...
G – Ah...
D – Então você está numa de entrar nesse vestidinho?
G – Tubinho...
D – Complicado, não acha?
G – Um pouco...
D – Um pouco?!?! Querida! (rindo discretamente) Desculpe a minha franqueza politicamente
incorreta, mas... você está muuuuito gorda!
G – Isso não pode estar acontecendo...
D – Mas está acontecendo sim, fofinha! O que você quer? Come igual uma draga o dia todo, não
quer subir nem um lance de escada; e vive de chopinho... Aí minha filha, fica difícil, né?
G – Mas também não é assim! Todas as manhãs eu tomo chá verde, suco de clorofila...
D – e um cheseeburguer, um refri “zero”, farofa, maionese, empanado, batata frita, um café “ com
adoçante”, frango a passarinho, provolone a milanesa, litros de chopp... e chá de carqueja para
desgastar... Ridícula!
G – Olha, você me respeita, tá?
D – Gorducha cara de pau...
G – Isso é bullying! Não faça com os outros...
D – Besteira...
G – Isso não é justo...
D – Já viu diabo justo? (diverte-se)
G– Mas afinal de contas, você não tem nada melhor prá fazer não? Vai trabalhar! Levar alguém pro
inferno...
D – Você.
G – Oi?
D – Eu ia te preparar melhor, mas já que você tocou no assunto...
G – Eu vou morrer?
D – (peninha cínica) – É isso, gata.
G – Por que eu?
D – “Por que eu”?!? Fofucha! Você passou seus últimos vinte anos enchendo a cara de gordura,
açúcar, álcool, sem um exerciciozinho, uma dietinha, um médico... Esse desfecho é inevitável!
G – Mas por que o inferno?
D – Digamos que é por... questões de gravidade.
G – Questões de gravidade?
D – Você é lenta, né? (explica) Acompanha: você, desse tamanho, lá pro alto, como? Nem de
foguete...
G – Absurdo! (desesperada) Na bíblia, Nossa Senhora subiu em corpo e alma levada pelos anjos...
D – (gargalha) Agora você apelou... Nossa Senhora é Nossa Senhora... E é magra! (Ri) Você
levada por anjos... Ía precisar de todos os anjos da guarda do planeta... E assim mesmo...
(G vai prá cima dele e ele a repele magicamente)
D – Sem violência! Você desse tamanho me amassa todo...
G – Já sei o que vou fazer! Eu vi isso num filme! (de joelhos reza) Valei-me Nossa Senhora!
(Efeitos. Surge uma senhorinha)
G – (reconhecendo) Vovó?! Desculpa vó, mas eu estava esperando um santo, um anjo...
V – Seu anjo está de folga. Você dá muito trabalho com essa comilança toda...
G – Vovó!!!
V – Minha netinha, o negócio é o seguinte: (olha uma carta) o que consegui prá você é uma
segunda chance, um retorno de experiência. Mas vai ter que entrar numa dieta! Acabou a farra
calórica! Você vai fazer uma reeducação alimentar: a partir de agora é só arrozinho integral,
suquinho de melão, muita água, sopinha, acelga, aipo, alface, brócolis, peixinho grelhado... e muito
exercício. Para sempre... É o que tem para hoje!
G – Mas que inferno...
D – Opa! Chamou?
V – É isso mesmo minha doce netinha, ou dieta ou... ele!
G – Vocês parecem que estão do mesmo lado...
V – Jamais.
D –Imagina...
G – Mas isso não é justo...E o livre arbítrio, gente?
D – Dando uma de kardecista, agora...
G – Eu sou gorda, sim! Posso até cuidar mais da saúde...
V – Uma ginástica...
G – Cala boca vó, que a senhora fumava horrores...
D – Ah, é mesmo...
G – Eu posso entrar numa dança, posso até pegar leve nos chopinhos...
V – Não é bonito moça que bebe... (Neta olha em tom ameaçador)
G – Mas eu estou bem assim! Gosto de ser como eu sou!
D – Uma gorda por ideologia? Que novidade.
G - Que mundo injusto, meu Deus!(Efeitos, surge um anjo de sunga, asas e aureola. Ela para a
avó) Meu anjo num estava de folga?
V = Estagiário.(Anjo entrega carta prá gorda. Sai. Ela lê em silêncio. Olha os dois maliciosamente)
G – Então meu diabinho é tão sarado, magrinho, gostoso... porque fez uma redução de estômago e
duas plásticas, né?
D – Mas faz tempo...
G – Mentira, diabo obeso. Está tudo neste dossiê. Você pesava mais de 140 kg...
D - Problema de glândula...
G – Você não tem moral para apitar nada na minha vida ou na minha morte! Muito menos para
criticar minha... fofura.
D – Mas eu sou o Diabo! E além do mais eu malhei muito! Fiz spinning! Trabalhei glúteo...
G – (tom sacro) – Volte pro inferno Satanás! (efeitos. Diabo grita e desaparece. Prá avó) Own,
vovozinha querida! (vovó aproxima feliz. Gorda estala dedo e aponta, foco acende, tema“Ghost”)
Vá para luz vovó! Eles estão esperando!
V – Mas minha netinha...
G – (irritadamente enfática) Vá para luz vovó! Eles estão esperando! (efeitos. Vovó desaparece.
Luz volta. Ela está com vestido vermelho nas mãos agora do tamanho dela)
G – É isso aí! Se o tubinho não entra, eu visto uma manilha! (veste-se rapidamente, se ajeita, pega
bolsa e sai. Entra irmão atrás do copo. O encontra vazio)
Irmão – Poxa, sacanagem! Ela bebeu o meu santo dyme todo! Acabou com o meu barato!
FIM.
